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A Idade da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto

Até 2013, o que comprovava a existência, anterior à fundação da Associação Musical de Ribeirão Preto (1938), da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto é o Programa de Concerto alocado no arquivo pessoal de Luiz Baldo (1909-2010), do segundo festival da Sociedade Cultura Artística de Ribeirão Preto, realizado em 1929, que mantinha a Orchestra Synphonica de Ribeirão Preto.

Esta sociedade, foi quem participou do evento de inauguração do Theatro Pedro II em 1930, sob regência do maestro Stábile. O Ignázio Stábile (Roma, 1899 – Ribeirão Preto 1955) foi o primeiro titular da orquestra mantida pela atual Associação Musical entre 1940 e 1955.

Devemos considerar também o programa de concerto de 1923, mas que não utilizou o termo Orquestra Sinfônica de RP, o mais antigo da cidade localizado até o momento, alocado no Arquivo Histórico da OSRP.

Recentemente, no dia 29 de outubro de 2013, localizei no arquivo pessoal José dos Reis Miranda Filho (1901-1956), de propriedade de sua neta, Dirce Maria Miranda Ribeiro, o recorte do Jornal Diário da Manhã, datado de 23 de fevereiro de 1961, com a foto da referida orquestra de 1923, de autoria de Eudóxio Manso e a seguinte legenda: “A primeira orquestra sinfônica de Ribeirão Preto fundada em 1921 e os elementos remanescentes, ainda aqui residentes vão comemorar nesse ano (1961) o quadragésimo aniversário de sua instalação”.

A OSRP, além da idade, possui características peculiares. É fruto do trabalho de muitos compositores e músicos, o que foi averiguado na dissertação de mestrado "Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto: Representações e Significado Social". Funcionou sempre como orquestra particular, seguindo o exemplo das sociedades de concertos brasileiras do final do século XIX, com a função de atender às diferenciações aristocráticas. Sua perpetuação deveu-se ao esforço de músicos que não se importavam em receber cachês e faziam trabalhos voluntários, tanto na secretaria, como na diretoria ou na produção.

Para o estudo da história da música de Ribeirão Preto, consideramos que importantes documentos com informações da cidade estão com a população, dentro das casas, nos álbuns de família, nas cartas e recortes de jornais entre outros documentos. Logo vem a indagação: quanto já não foi descartado? A desconfiança afasta as pessoas e é realmente difícil quem queira abrir os arquivos e a intimidade familiar a estranhos. E o destino fica nas mãos da abnegação dos estudantes e pesquisadores nessa busca, nos seus objetivos em preservar a história.

Apesar dos estudos apresentarem apenas resultados parciais, a Associação Musical mantenedora da OSRP considera que o ano de fundação da Orquestra Sinfônica como 1921, devido à localização do recorte do Jornal “Diário da Manhã”, estando a orquestra com 93 anos.


Atividade Ininterrupta

Orquestras existem no Brasil deste o período colonial. Ainda se faz necessário um estudo minucioso sobre a história de todas as orquestras brasileiras principalmente as do início do século XX, para se averiguar qual realmente é a orquestra mais antiga e que nunca tenha interrompido suas atividades artísticas.

A Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto é considerada, pelo menos em Ribeirão Preto, como a segunda “mais antiga orquestra brasileira em atividade ininterrupta”. E vem a pergunta: qual a primeira?

A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro é considerada a mais antiga orquestra brasileira com atividades até hoje. Foi fundada em 1909, mas teve seu corpo estável, isto é, músicos contratados e se apresentando regularmente, apenas a partir de 2 de maio de 1931[1].

Muitas orquestras querem estar entre as antigas, mais tradicionais e dentro do quesito em questão. Como exemplos, a Orquestra Sinfônica de Recife, fundada em 1930, se considera a primeira em atividade ininterrupta[2] e a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre que, apesar de divulgar em seu site[3] que é a segunda mais antiga orquestra brasileira em atividade, foi fundada em 1950, bem depois de todas as citadas até aqui.

Consideremos também a existência da Orquestra Ribeiro Bastos cuja data de fundação ainda não foi descoberta e da Orquestra Lira Sanjoanense (1776), ambas do município de São João del Rey em Minas Gerais, que em alguns momentos de sua história pararam suas atividades

Por esta conta, e se ela estiver certa, já que, volto a dizer, ainda é necessário um estudo minucioso, histórico-musicológico, envolvendo as orquestras brasileiras, a OSRP não é a segunda, como se pensava. Recife tem a primeira, Rio de Janeiro a segunda e a OSRP é a terceira “mais antiga orquestra brasileira em atividade ininterrupta”.

Muitos outros conjuntos orquestrais brasileiros foram fundados com o passar do tempo, preenchendo uma lista de orquestras que podem ser consideradas as principais no país e hoje oferecem a realização da música erudita nacional e estrangeira com multiplicidade de instrumentos e timbres. As orquestras do interior do estado de São Paulo são relativamente recentes, como a Orquestra Sinfônica de Campinas, da década de 1970.

 

Gisele Laura Haddad - Musicóloga, doutoranda em Musicologia pela Escola de Comunicações e Artes da USP-SP, mestre em música pelo Instituto de Artes da UNESP-SP (2009). Formada em Piano Popular pelo Centro de Estudos Musicais Tom Jobim – ULM/SP (2006). É membro do Grupo de Pesquisas do CNPq intitulado Musicologia Histórica Brasileira. Atualmente trabalha como professora do curso de Licenciatura Plena em Música da Universidade de Ribeirão preto/UNAERP e como arquivista assistente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) onde atua na pesquisa do acervo histórico desta Instituição. De setembro de 2009 a dezembro de 2012, trabalhou na cobertura fotográfica e edição de textos para a revista Movimento Vivave, veículo de divulgação oficial da OSRP, função que voltou a exercer desde outubro de 2013. Possui graduação em Administração pelo Centro Universitário Moura Lacerda de Ribeirão Preto (1996).


[1] Disponível em: <http://www.theatromunicipal.rj.gov.br/orquestra.html>. (24 abr. 2013).

[2] Disponível em: <http://www.recife.pe.gov.br/cultura/orquestrasinfonica.php>. (27 abr. 2013).

[3] Disponível em: <http://www.ospa.org.br/?page_id=983>. (28 abr. 2013).

Recorte do Jornal Diário da Manhã, datado de 23 de fevereiro de 1961, com a foto da referida orquestra de 1923, de autoria de Eudóxio Manso.