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NC - Igor Stravinsky (1882 – 1971) - Pássaro de Fogo

Assim como o “Prelúdio à tarde de um Fauno” de Debussy, o “Pássaro de Fogo” de Stravinsky também se inspira em uma história, desta vez, uma lenda russa adaptada para o balé por Michel Fokine (1880 – 1942), um respeitado bailarino e diretor de coreografia da época, com quem Stravinsky viria a trabalhar posteriormente em outras obras. O enredo da lenda conta a história de Ivan, o herói que durante um passeio noturno num bosque pertencente ao reino mágico de Katschei, “O Imortal”, encontra o pássaro de fogo, criatura de grande poderio mágico, que então comia maçãs douradas das árvores prateadas do reino. Ivan consegue aprisionar a criatura mágica, mas não hesita em libertá-la em troca de uma de suas plumas encantadas que lhe provê proteção mágica. No dia seguinte, Ivan se depara com 13 princesas que saíam do castelo da temível criatura imortal, Katschei, e se apaixona por uma delas, de nome Tsarevna. Ivan consegue adentrar no castelo, e Katschei tenta transformá-lo em pedra, porém, sem sucesso graças à proteção mágica do pássaro de fogo. Durante a batalha, a mágica do pássaro faz com que Ivan vença, o castelo desapareça e as princesas sejam libertadas, o que permite Tsarevna se casar com Ivan, o herói da história.

Vemos, nessa síntese do enredo, que se trata de um típico conto de fadas, o que permite à Stravinsky evocar imagens e personagens que representem musicalmente essa história cheia de magia, fantasia e mistério. Da mesma maneira que o “Prelúdio” de Debussy, essa obra de Stravinsky também apresenta aspectos inovadores para a corrente da música moderna.

Enquanto a obra de Debussy ampliava as possibilidades da forma musical, Stravinsky levava ao extremo as questões harmônicas. Isso não quer dizer que a obra de Debussy não contribuísse nesse sentido, mas com “Pássaro de Fogo” Stravinsky preparou o caminho para uma das obras mais importantes do período moderno: “A Sagração da Primavera”, de 1913, que renovou significativamente o conceito de ritmo e harmônica na música.

Embora o “Pássaro de Fogo” não possua elementos tão paradigmáticos quanto “A Sagração da Primavera”, já apresenta traços nítidos da postura que Stravinsky iria assumir em suas obras posteriores, incluindo a própria “Sagração”, como o emprego de escalas e intervalos poucos convencionais, com inserções de “notas estranhas à harmonia”, o que dá um tom lúgubre à obra, colaborando para o ambiente de manifestação das criaturas mágicas e do temível Katschei, enquanto que em passagens de caráter mais ameno, como nos momentos de carinho entre Ivan e Tsarevna, ele opta por uma instrumentação mais colorida, dignas do vocabulário de Rimsky-Korsakov (1844 - 1908), respeitado compositor russo do período nacionalista romântico de quem Stravinsky foi discípulo.  Outro ponto a ser destacado nessa obra é a complexidade harmônica que possibilitou a Stravinsky experimentar combinações exóticas de timbres, com mesclas não muito convencionais de sons, onde, por diversas vezes, instrumentos diferentes compartilham da mesma linha melódica sem que a fluidez seja comprometida.

Dario Rodrigues Silva