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NC - Almeida Prado (1943 – 2010) - Concerto “Fribourgeois” para piano e cordas

Natural de Santos-SP, José Antônio Rezende de Almeida Prado foi um dos mais prolíficos compositores brasileiros. No Brasil estudou piano com Dinorá de Carvalho (1905 – 1980), harmonia com Osvaldo Lacerda (1927 – 2011) e composição com Camargo Guarnieri (1907 – 1993). Em 1969 ganhou o prêmio do I Festival de Música da Guanabara com a obra Pequenos Funerais Cantantes. Esse prêmio tornou possível a ida de Almeida Prado para a Europa, com uma breve permanência em Darmstadt estudando com György Ligeti (1923 – 2006) e Lukas Foss (1922 – 2009), e uma longa estadia em Paris onde foi discípulo de Nadia Boulanger (1887 – 1979) e Olivier Messiaen (1908 – 1992). Esse vasto conhecimento adquirido através do contato com professores da vanguarda musical da época foi responsável pela formação da linguagem, personalidade e identidade musical do compositor.

Suas obras podem ser divididas em quatro fases: Nacionalista (1960 – 1965), na qual há forte influência de Camargo Guarnieri e do folclore brasileiro; Pós-Tonal (1965 – 1973), onde predomina o emprego das técnicas composicionais do século XX aprendidas com Nadia Boulanger, Messiaen e Gilberto Mendes (1922), de quem Almeida Prado também foi discípulo nesse período; Síntese (1974 – 1982), onde há um hibridismo ou fusão entre os aspectos da fase anterior com o folclorismo brasileiro, e Pós-moderna (1983 – 2010), que é o período em que o compositor leva ao extremo as questões da exploração da sonoridade, dos timbres, das ressonâncias e das releituras de estilos do passado. Algumas características bem notórias da personalidade musical de Almeida Prado, e que ocorrem em praticamente todas essas fases, são as temáticas, que quase sempre se relacionam com assuntos religiosos, místicos, ecológicos e astrológicos, o que reforça sua identidade enquanto compositor.

O concerto “Fribourgeois” – Friburgo, em português – composto em 1985, faz parte da fase pós-moderna, o que é constatado não só pela grande exploração das possibilidades sonoras, mas também pela revisitação às formas barrocas. Os movimentos que constituem a obra são: Introduzione e Recitativo I, Passacaglia, Recitativo II, Toccata Furiosa sul Il nome de Bach, Recitativo III, Arioso, molto cantábile e amoroso appasionatto e Moto Perpetuo. O concerto foi encomendado para uma homenagem dos 300 anos de nascimento de J. S. Bach (1685 – 1750), por um colecionador de arte da Suíça chamado Paul Hahnloser e sua esposa, Margrit, ambos residentes em Friburgo, daí, o nome do concerto. Introduzione e Recitativo I são breves e servem para inserir o ouvinte na atmosfera da obra, preparando a entrada da Passacaglia, que foi um gênero muito difundido no barroco e que se define através da constante reiteração de uma melodia submetida a variações, que nesse caso somam 12 ao todo. Após a última variação, segue-se um Largo, trecho lento com motivos provenientes da Introduzione que antecede o Recitativo I, de apenas quatro compassos, e que retoma a atmosfera inicial servindo de ponte para o Recitativo II, onde notamos uma predominância maior do piano enquanto locutor do discurso musical. Mais uma vez, o movimento se encerra com um Largo também de quatro compassos que conduz a música em direção à Toccata Furiosa. A referência a Bach fica mais clara nessa Toccata, já que as primeiras notas emitidas pelo piano são: si bemol, lá, dó e si natural, que na nomenclatura alemã correspondem respectivamente às letras B-A-C-H. No Recitativo III, novamente somos relembrados da atmosfera da Introduzione, que se dá através das notas pontuadas do piano, porém, agora com motivos mais intensos e dramáticos. A intensidade do Recitativo III converge para a grande expressividade do Arioso, outro gênero barroco que faz uma contraposição com a Toccata anterior: esta última se define como um gênero mais explosivo e brilhante, de caráter vigoroso, enquanto que o Arioso faz jus ao lirismo das obras vocais, onde a expressão predomina. O Moto Perpetuo, assim como sugere o título, é um movimento contínuo com um caráter bem parecido com o da Toccata, onde o ritmo e suas várias combinações são os principais propulsores do movimento. Ao todo, temos três recitativos intercalados com os grandes movimentos. O Recitativo é também um gênero desenvolvido no século XVII, em pleno Barroco, onde o ritmo da fala é mais relevante do que o da música em si, o que lhe concede uma natureza mais declamatória como podemos observar neste concerto. Em um sentido metafórico, seria como se o compositor provocasse uma declamação mais reflexiva antes da entrada das grandes formas – Passacaglia, Toccata e Arioso – com exceção do Moto Perpetuo que pode ser visto como uma consequência do Arioso, já que um recitativo entre ambos poderia comprometer o contraste pretendido entre a introspecção de um, com a imponência do outro.

Dario Rodrigues Silva