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NC - Ludwig van Beethoven (1770 – 1827) - Concerto nº 5 para Piano e Orquestra, Op. 73 (Imperador)

“Uma criatura completamente indomável [...]”. Foi assim que o escritor e pensador alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832) descreveu a personalidade de Ludwig von Beethoven. Nascido na cidade alemã de Bonn por volta de 1770, Beethoven é um dos compositores mais importantes da música ocidental, sobretudo, referente ao período de transição entre o Classicismo do século XVIII e o Romantismo do século XIX. As contribuições de Beethoven no campo da música são paradigmáticas, pois rompem com várias convenções da época, porém, sem nunca abandonar completamente o legado do passado de Haydn (1732 – 1809) e Mozart (1756 – 1791) – dois dos maiores compositores do período clássico –, num exercício de maior liberdade e expansão no tratamento das grandes formas como as sinfonias, concertos, sonatas e quartetos. Beethoven foi muito impulsionado por um movimento da literatura alemã conhecido como Stürm und Drang – Tempestade e Ímpeto – cujos principais articuladores foram Goethe e o poeta e filósofo Friedrich Schiller (1759 – 1805), e que começou a surgir por volta de 1760 e foi até meados de 1780. Esse grupo de literatos, escritores e pensadores buscava uma interpretação mais espontânea do mundo, onde a emoção predominava acima da razão. Essa foi a fagulha que faltava para que, posteriormente, Beethoven preparasse o terreno do Romantismo. Vale sublinhar que, por volta de 1805, Beethoven já se mostrava preocupado em relação à sua iminente surdez, a qual mais tarde o faria entrar em um profundo quadro depressivo, fato que inegavelmente abalou muito a sua força criativa, fazendo-o diminuir consideravelmente a sua produção musical durante certo período.

Seu Concerto nº 5 em Mi Bemol Maior para Piano e Orquestra, Op. 73, reflete bem a questão do desenvolvimento e expansão, e já pertence a uma postura romântica. Composto em meados de 1809, é o último dos concertos para piano, produzido durante a fase mais intensa do compositor. Nele, o tratamento orquestral que Beethoven havia explorado em suas sinfonias Heróica e Pastoral – respectivamente, as de números 3 e 6 – tornam-se parte da sua concepção de concerto para solista, ou seja, ele emprega uma orquestra completa, volumosa, logo no início da obra, e assim segue até o fim.

Embora tenha sido dedicada ao Arquiduque Rudolf da Áustria – importante patrono e protetor do compositor – para quem Beethoven dedicou outras 13 obras, esse concerto recebeu a alcunha de Imperador. O nome se deve ao fato de sua suntuosidade, da evocação de uma grandeza heróica e imperial, de uma obra com grandes proporções. No primeiro movimento, Allegro, podemos perceber toda a amplitude e riqueza da orquestração de Beethoven, às vezes com sutis colorações entre as madeiras e metais que preparam os contrastes para as entradas do piano, e outras vezes de forma mais impetuosa com tímpanos e cordas. Diálogos muito bem articulados acontecem entre as cordas e os sopros, e os temas principais são evocados pelo piano que os entregam à orquestra, a qual se encarrega de desenvolvê-los garantindo a fluidez da obra. O segundo movimento, Adagio um poco mosso, é de profunda serenidade, de caráter introspectivo e meditativo; é o momento onde somos lançados em uma atmosfera mais aérea, onde harmonias e melodias deslizam com elegância entre o piano e a orquestra. O último movimento, Rondo allegro, que emerge discretamente do final do segundo movimento, tem proporções sinfônicas mais marcantes. O tema surge em pianíssimo e desenvolve-se rumo a um fortíssimo explosivo, chegando finalmente ao Allegro majestoso que encerra a obra de forma eufórica e extasiante.

Provavelmente, esse espírito heróico, impetuoso e quase agressivo que Beethoven imprime em seu concerto Imperador, seja resultante de seu contato com os ideais da Revolução Francesa, tanto quanto com o Iluminismo e com o próprio Stürm und Drung, movimentos que abalaram as estruturas sociais da época. Esse insigne concerto é o reflexo da impulsividade de Beethoven, “criatura indomável”, e do seu desejo em querer fazer da liberdade a tônica de toda a sua vida.

Dario Rodrigues Silva