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NC - Johannes Brahms (1833 - 1897) - Sinfonia nº 1 em Dó Menor, Op. 68

Nascido em 1833 na cidade de Hamburgo, norte da Alemanha, Brahms é considerado um dos mais intensos compositores do Romantismo do século XIX. Sua música tem uma densidade sonora de grande opulência, resultante das linhas melódicas que tecem uma complexa e bem articulada trama contrapontística. É um compositor de extremos, capaz de representar desde a mais sutil das ternuras até a mais arrebatadora das paixões, explorando ao máximo as nuances das emoções humanas. No início de sua vida musical, dedicou-se ao estudo de piano e com apenas 10 anos já deu seu primeiro recital público. Seu pai ganhava a vida tocando contrabaixo em bandas militares, orquestras, tavernas e restaurantes, e não demorou muito para que Brahms também frequentasse e atuasse nesses mesmos ambientes. A experiência de tocar em restaurantes e cervejarias, que geralmente constituíam uma atmosfera eclética devido à frequente movimentação de viajantes e peregrinos, lhe rendeu a chance de fazer parcerias importantíssimas para sua carreira, como a feita com o violinista húngaro Eduard Reményi com quem viajou pela Alemanha realizando recitais e conhecendo muitas outras personalidades importantes do meio musical, como o grande compositor e virtuoso pianista Franz Liszt (1811 – 1886) na cidade de Weimar e, posteriormente, o também compositor e pianista Robert Schumann (1810 – 1856) e sua esposa Clara Schumann (1819 – 1896), também exímia pianista e compositora. Muito se fala sobre um possível caso amoroso entre Brahms e Clara, mas não há nenhuma evidência que comprove efetivamente tal relação, ou possivelmente ela nunca tenha sido consumada, mas o que se sabe é que Clara sempre foi uma inspiração romântica para Brahms, ainda mais depois da morte de Robert, motivo que fez com que ambos se aproximassem ainda mais.

Em determinada ocasião, durante uma conversa, Robert Schumann sugeriu à Brahms que ele compusesse uma sinfonia e aceitasse o desafio imposto pela 9ª Sinfonia de Beethoven, comparação que incomodava demasiadamente Brahms, pois lhe assustava a responsabilidade de dar continuidade a todo esse legado sinfônico deixado por Beethoven. Houve então, uma lacuna referente à composição de sinfonias no período entre Beethoven e Brahms, pois depois da 9ª de Beethoven, nenhum compositor se aventurou em compor sinfonias com tamanhas proporções.

Mas Brahms não abandonou inteiramente a ideia de compor uma sinfonia, porém, não iria compor uma sem antes se sentir totalmente seguro para prosseguir com tal tarefa. Ele experimentou alguns temas e ideias sinfônicas em sonatas para piano, mas ainda não se sentia seguro. Sua Sinfonia nº 1 em Dó Menor, Op. 68, só foi completada em 1876, após 15 anos de esboços e estudos. A sua estreia foi um sucesso e, como já era de se esperar, as comparações com Beethoven não demoraram a aparecer. Brahms era tradicionalista em relação ao uso de fórmulas e estruturas provenientes da era clássica, e seu contraponto complexo era fruto de estudos das obras dos grandes mestres barrocos, como J. S. Bach (1685 – 1750), tudo isso, claro, dentro de uma linguagem romântica. O compositor, pianista e maestro alemão Hans von Büllow (1830 – 1894) chegou a chamar a Sinfonia nº 1 de Brahms de “a 10ª Sinfonia de Beethoven”, já que as similaridades entre os estilos de ambos os compositores eram evidentes. Brahms não era rígido em relação às formas musicais, pelo contrário, constantemente experimentava formas cada vez mais abertas, e também, não utilizava o Scherzo – termo que significa brincando – que Beethoven tanto aplicava em suas sinfonias.

Na sua Sinfonia nº 1, constituída de quatro movimentos, o primeiro deles, Un poco sostenuto - Allegro, é uma forma sonata – cuja característica principal reside na apresentação de um tema que ao longo do movimento vai sendo desenvolvido e reapresentado – com uma introdução que foi anexada somente após a conclusão da sinfonia. Essa introdução abre de forma brilhante, sendo acompanhada marcadamente pelo tímpano. Assim que a introdução termina com frases feitas pelo oboé e violoncelo, o tema da sonata é apresentado. É um movimento de muita densidade, de acúmulo de tensões e uma malha orquestral bem carregada. Assim como Beethoven, Brahms se utiliza de um movimento lento entre seções mais movimentadas, como é o caso do segundo movimento, Andante sostenuto, que vem exatamente para dissolver ou aliviar toda a tensão acumulada no primeiro movimento, de maneira lírica e complacente. Sua estrutura é ternária, ou seja, A-B-A’ – onde cada letra representa uma seção diferente, com o último “A” levemente alterado em relação ao primeiro – e termina com uma coda, que  podemos entender como uma extensão ou alargamento no intuito de concluir o movimento. O equilíbrio entre as sensações é algo que Brahms buscava incessantemente. O terceiro movimento, Un poco allegretto e grazioso, possui um perfil mais suave do que o primeiro movimento, e também trata-se de uma forma ternária que pode ser melhor descrita como Allegretto - Trio - e retorno ao Allegretto. O tema do Allegretto é ouvido logo no início pelos sopros, e possui um caráter mais terno e doce. O Trio é levemente mais agitado e se situa na parte central do movimento, cujo tema de caráter mais alegre é apresentado por três instrumentos – daí o nome Trio – sendo eles flauta, oboé e fagote. Em seguida, há uma mudança significativa de ambiência, saindo da euforia do Trio e voltando à ternura do Allegretto, e assim concluindo o movimento. O quarto movimento, Adagio - Piú andante - Allegro non troppo, ma con brio, começa com uma introdução lenta, com certa obscuridade implícita em seu caráter. Na parte Piú andante, ouvimos uma melodia bucólica e de caráter pastoral feita pelas trompas, que nos fornece uma cena muito contemplativa. Na última seção, Allegro non troppo, ma com brio, podemos notar muito do espírito e energia de Beethoven, tanto no tratamento orquestral quanto na impulsividade que se dirige para a conclusão resoluta da obra. A Sinfonia nº 1 de Brahms é uma peça arrebatadora, capaz de mover nossas emoções do primeiro ao último acorde, com uma gama enorme de momentos inspiradores e de grande poesia.

Dario Rodrigues Silva