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NC - Dmitry Kabalevsky (1904 – 1987) - Concerto para Violoncelo e Orquestra, Op. 49

A Rússia dos séculos XIX e XX foi – e ainda é – um pólo de grande movimentação musical de onde surgiram compositores como Rachmaninoff (1873 – 1943), Mussorgsky (1839 – 1881), Shostakovich (1906 – 1975) e muitos outros. Foi um ambiente fértil não só em relação ao grande número de compositores, mas também de intérpretes virtuosos que se projetavam como solistas. O compositor e pianista Dmitry Kabalevsky (1904 – 1987) nasceu em São Petersburgo, antiga Leningrado, cidade que ao longo do tempo conquistou uma sólida tradição musical, onde célebres nomes da música como Tchaikovsky (1840 – 1893) e Rimsky-Korsakov (1844 – 1908) também atuaram.

As obras de Kabalevsky não fogem muito dos padrões de sua época; possuem uma harmonia convencional, com uso de cromatismos e modulações típicas do Romantismo tardio – final do século XIX e início do XX –, com um caráter muito voltado à vertente popular, celebrando assim as raízes russas presentes nas manifestações folclóricas e populares, características estas que muito se alinharam aos ideais políticos do Partido Comunista da União Soviética, ao qual Kabalevsky aderiu em meados de 1940. Essa sua adesão ao Partido Comunista nos revela muito mais do que a escolha ou gosto político do compositor. De acordo com os propósitos do próprio Partido Comunista, a arte – em todas suas manifestações – deveria seguir uma estética politicamente engajada, com o tema focado nos assuntos do povo russo, em seu cotidiano, ou seja, com forte teor nacionalista. Essa estética ou estilo ficou conhecido como Realismo Socialista. Como era de se esperar, Kabalevsky encontrou estreita afinidade com esses ideais estéticos.

O seu Concerto para Violoncelo e Orquestra nº 1 em Sol Menor, Op. 49, composto por volta de 1948, ilustra bem essa época. O primeiro movimento, Allegro, começa com um pulsar enérgico bem característico das danças russas, o qual serve de base para o surgimento do elegante tema do violoncelo. Os ambientes desse movimento alternam-se entre passagens mais vigorosas, com outras mais amenas. Constantemente, o compositor provoca contrastes no decorrer do movimento, mas sem fazer com que percamos a referência de seu caráter principal, pois muitas das ideias do tema – aquele mesmo apresentado logo no início pelo violoncelo – são relembradas e reutilizadas no decorrer do movimento, nos dando uma grande sensação de coesão e equilíbrio. O segundo movimento, Largo - molto espressivo, é impregnado por um forte caráter declamatório. A escala feita pelo violoncelo logo no início, a qual também possui função temática, reflete bem a natureza desse movimento; a escala ascendente que parece seguir rumo à confirmação da tonalidade maior de maneira convicta e decidida, nos surpreende ao atingir a 3ª menor da escala – nota característica do modo menor, o qual possui um caráter mais melancólico – causando uma sensação de angústia, como uma dor que nos atinge sem estarmos prontos para recebê-la, mudando do modo maior para o menor de forma inesperada. No terceiro e último movimento, Allegretto, o ritmo mais impulsivo retorna com uma melodia marcante executada pelo violoncelo, e novamente com o espírito russo se manifestando fortemente na parte orquestral em momentos triunfantes que lembram marchas militares. Essa obra é uma comunhão de elementos russos, todos bem costurados e articulados por Kabalevsky, que conseguiu capturar em belas melodias e harmonias, o espírito vivo de sua pátria.

Dario Rodrigues Silva