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NC - Alberto Ginastera (1916 – 1983) - Danza Final (Malambo)

Talvez uma das características mais distintivas da América Latina seja sua grande variedade cultural, constituída por manifestações das mais diversas naturezas, provocando uma riqueza inigualável de costumes, ambientes e crenças. É dessa fonte inesgotável de inspirações que o sedento espírito musical de Alberto Evaristo Ginastera (1916 – 1983) irá se nutrir. Nascido em Buenos Aires, Ginastera é considerado um dos pilares mais importantes da música produzida na América Latina. Suas obras são como quadros que expressam as cenas mais emblemáticas da paisagem latino-americana, através de uma perspectiva nunca antes explorada. Sua temática se concentra nas cenas gauchescas, nas danças características dos pampas, na cultura dos Andes, nos pastos dos planaltos argentinos e em muitas outras inspirações. Sua música é visceral, intensa e expressiva, e representa a mescla das grandes formas ditas europeias, como o ballet, óperas, concertos e sonatas, com elementos locais como as melodias andinas, as danças dos crioulos, os festejos gauchescos e tantas outras fontes, constituindo assim um estilo híbrido bem peculiar de sua identidade.

A Danza Final (Malambo) faz parte da suíte Danzas de Estancia, Op. 8a de 1941, para orquestra. O termo Estancia pode ser traduzido e descrito como um rancho que se situa em meio ao campo, ou um abrigo humilde onde os trabalhadores rurais descansam e se reúnem para festejos e celebrações – paisagem que muito marcou a infância de Ginastera. Essa suíte – ou conjunto de danças – é formada por quatro partes: 1) Los trabajadores agrícolas (Os trabalhadores agrícolas); 2) Danza del trigo (Dança do trigo); 3) Los peones de hacienda (Os peões da fazenda) e 4) Danza Final (Dança Final) – Malambo. Ou seja, são danças sequenciais baseadas no cotidiano rural. Um fato importante a ser ressaltado é que essa mesma suíte foi retirada de uma obra maior de Ginastera: o ballet Estancia Op. 8 do mesmo ano. Devido a um problema com a companhia de ballet que iria estrear a obra, Ginastera se viu forçado a apresentá-la de outro modo, portanto, escolheu quatro danças de seu ballet e as agrupou em uma suíte para orquestra. O ballet completo só foi estreado em 1952, sendo assim, a suíte ficou famosa muito antes do próprio ballet do qual ela foi retirada.

Outro aspecto importante dessa Dança Final é que ela é um Malambo, dança típica dos bailes argentinos, provavelmente datada do século XVII, e que exige do dançarino uma grande habilidade com as movimentações das pernas. Geralmente é uma dança individual, e que retrata toda a virilidade e vigor do trabalhador rural. A Danza Final se desenvolve sobre um ritmo vigoroso e frenético feito pela orquestra, em momentos extasiantes conjugados com uma orquestração suntuosa, digna de representar a incessante jornada de trabalhado dos peões dos pampas.

 

Dario Rodrigues Silva