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NC - Piotr Ilich Tchaikovsky - Sinfonia n° 6 “Patética”

Nascido na Rússia no ano de 1840, Piotr Ilich Tchaikovsky é um dos mais importantes compositores românticos de seu tempo, com características que o distinguem bastante de seus compatriotas. Na Rússia, em meados de 1860, houve uma intensa movimentação nacionalista, onde vários compositores começavam a se organizar em grupos, cujo propósito era debater e produzir música especificamente russa, ou seja, usando materiais musicais típicos de seu país, como por exemplo, as canções folclóricas. O grupo mais expressivo foi formado por volta de 1867, pelos grandes compositores Borodin (1833 – 1887), Balakirev (1837 – 1910), César Cui (1835 – 1918), Mussorgsky (1839 – 1881) e Rimsky-Korsakov (1844 – 1908), e ficou conhecido como o “Grupo dos Cinco”. Tchaikovsky se sobressaiu exatamente por não aderir a esse ideal; ao invés de utilizar e incorporar elementos exclusivamente russos, Tchaikovsky usava materiais de diversas culturas em suas obras, desde melodias francesas, italianas, escandinavas e de muitas outras fontes, fato que ajudou muito a entrada e aceitação de sua música no mundo ocidental.

A sinfonia é um dos gêneros mais consagrados tanto do período clássico quanto do romântico. Assim como a sonata – gênero musical para instrumentos de teclado, também de muita importância em ambos os períodos –, a sinfonia clássica seguia basicamente, o seguinte modelo: o primeiro movimento rápido, o segundo mais lento ou moderado, e o terceiro em um andamento geralmente mais rápido que o primeiro. Era de costume dos compositores clássicos empregarem um minuetto – dança ternária de origem francesa – entre o segundo e terceiro movimentos da sonata, e na sinfonia, ocorria o mesmo. Podemos então dizer que a sinfonia clássica é uma sonata para orquestra, ou uma peça orquestral na forma sonata. Já no período romântico, do qual Tchaikovsky é representante, a sinfonia ganha um tratamento mais livre, descompromissado em relação à rigidez da forma, não sendo obrigada a ter três ou quatro movimentos; algumas contam seis ou sete, e outras com apenas dois, ou seja, variavam bastante e ficavam ao encargo do compositor.

Exemplo disso é a Sinfonia nº 6, Op. 74 de Tchaikovsky, composta em 1893. O primeiro movimento dessa sinfonia é um Adágio – Allegro non troppo, ou seja, um movimento que se inicia lentamente e depois progride para um andamento mais rápido. Na verdade há uma sucessão de passagens intensas e conturbadas, mescladas com outras mais íntimas e melancólicas, sentimento esse que é anunciado logo no início desse movimento através do timbre triste e escuro do fagote, e se encerra com um tema desolado e desesperançoso feito clarineta. Levemos em consideração que Tchaikovsky saía de um profundo quadro depressivo enquanto se empenhava na composição dessa sinfonia. Um dos motivos de sua depressão foi a perda do contato com a baronesa Nadezhda von Meck, viúva que o ajudava financeiramente, e também pelo fato de viver reprimido pela impossibilidade de assumir sua homossexualidade. O segundo movimento, Allegro con grazia, é bem atípico; trata-se de uma valsa, embora esteja no compasso 5/4, nada comum para uma valsa, que propositalmente soa deslocada e impaciente, dificultando ainda mais para um leigo identificá-la como tal. Talvez o compositor tenha desejado expressar a instabilidade psicológica que ele passava naquele momento, ou sua agitação de espírito. Tchaikovsky já havia experimentado uma valsa assim, em sua “Valsa de Cinco Tempos”, do ciclo 18 peças para piano, Op. 72, também de 1983. O terceiro movimento, Allegro molto vivace, é vívido, fugaz e com passagens ágeis e festivas. Poderíamos encará-lo como um scherzando, expressão italiana que quer dizer “brincando”. É o mais vibrante e alegre dos movimentos. Fazendo outra costura com o estado emocional de Tchaikovsky, é como se esse movimento representasse a busca incessante por uma esperança ou felicidade que nunca alcançara, como uma utopia. O quarto movimento e último é o Finale – Adágio lamentoso. Eis outro aspecto bem incomum dessa sinfonia, o fato de ela encerrar com um movimento lento; o mais usual era o contrário, ou seja, terminar de forma heróica, brilhante ou afirmativa. Mas aqui, nesse movimento, a triste sombra da desesperança retorna, como se o compositor aceitasse o seu triste destino que, desde o primeiro movimento, já fora anunciado. O tom de um lamento melancólico predomina do início ao fim.

Esse breve enredo que acabamos de acompanhar, explica em parte, o porquê de Tchaikovsky ter dado o título de “Patética” a essa sua sinfonia, termo que deriva do grego “Pathos” cujo significado está vinculado ao sofrimento, ao “deixar-se levar por”. É uma sinfonia cujo roteiro é o sofrimento do próprio compositor, refletindo a sua pathologia, o mal que o corroia por dentro. Tchaikovsky completou sua Sinfonia Patética em agosto de 1893, e veio a falecer em novembro do mesmo ano, deixando escrita em forma de música, suas últimas palavras de desamparo e angústia.

Dario Rodrigues Silva