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NC - Richard Wagner (1813 – 1883) - Abertura da ópera “Tannhäuser e o torneio de trovadores de Wartburg”, WWV 70

“Tannhäuser e o torneio de trovadores de Wartburg” é uma grande ópera em três atos, composta pelo alemão Wilhelm Richard Wagner, um dos mais significativos e inovadores nomes do cenário operístico do século XIX. Por ser muito aclamada no repertório orquestral, a Abertura desta magnífica obra é frequentemente apresentada como peça independente, ou seja, embora a sua função seja a de introduzir ou iniciar a ópera, sua força e beleza musicais lhe dão autonomia para que seja apresentada isoladamente como peça de concerto. Além da parte musical, Wagner também se encarregou de escrever o texto não só desta ópera, mas de todos os seus trabalhos, já que contava com um dom extraordinário como literato. Quase sempre se desanimava com os trabalhos dos libretistas de sua época – profissionais que escreviam os libretos das óperas, ou seja, o enredo – o que o forçava a assumir essa função.

O próprio Wagner costuma chamar suas óperas de “dramas musicais”, um termo que segundo ele, expressava melhor o seu sentido artístico. Wagner concebia a ópera como algo muito mais amplo do que a simples articulação entre músicas e cenas; pensava nela como um grande espetáculo em que a teatralidade, a arte visual, a expressão corporal, o vestuário, o cenário e demais elementos estariam conjugados num mesmo plano de igual importância. Se olharmos para seu passado, podemos entender essa sua concepção. O pai de Richard Wagner, Carl Friedrich Wagner, morreu após seis meses de seu nascimento. Posteriormente, sua mãe Johanna Rosine, se casou com o dramaturgo Ludwig Gayer, o qual se apegou muito ao pequeno Richard, e foi justamente quem o influenciou na questão dramatúrgica. Outra grande colaboração de Wagner para a ópera foi o emprego de leitmofis - do alemão, motivo contínuo - que é uma técnica definida como a representação sonora de um dos quaisquer elementos da ópera, que podia ser um personagem, um lugar, um ambiente ou até mesmo um sentimento. Para cada um desses elementos escolhidos, Wagner criava uma melodia ou uma ideia harmônica que os identificassem, como se fosse uma identidade sonora exclusiva de cada um deles, porém, é uma identidade sujeita a mutações, as quais dependiam do estado de ânimo desses elementos. Por exemplo, quando a personagem sofre uma desilusão ou uma perda que a leve para um estado de profunda tristeza, o seu leitmofiv, que antes havia sido apresentado de maneira alegre e brilhante, também se transforma para refletir esse sentimento através da mudança de tonalidade ou do caráter.

Esta ópera em particular é uma fusão de duas lendas alemãs distintas: a do menestrel “Tannhäuser”, que originalmente fora como um cavaleiro de cruzada da região da Franconia, e da lenda do “Torneio de Trovadores de Wartburg”, sendo que ambas foram anacronicamente ligadas e arranjadas pelo escritor Ludwig Bechstein, cabendo a Wagner o cuidado de fazer a readaptação para a ópera, tornando o enredo compatível com a trama musical.

A abertura começa com uma das melodias mais memoráveis de toda a ópera: o “Coro dos Peregrinos”, um coral majestoso, bucólico, que é apresentado pelas trompas, fagotes e clarinetas. Essa mesma música será cantada no primeiro ato, por um grupo de peregrinos que cantam seus pecados na busca por um perdão. Assim, a abertura segue apresentando várias cenas que serão novamente utilizadas durante os três atos da ópera. Geralmente, as aberturas de óperas são utilizadas como uma maneira de expor os principais motivos musicais de toda a obra, como uma prévia ou uma espécie resumo dos materiais musicais mais importantes, mas que constituem um texto inicial que serve de introdução. Podemos ainda compará-la a uma boa sinopse de um livro, que instiga o leitor dando alguns detalhes sobre a história, porém, sem revelá-la por completo.

Por fim, é também uma obra de abertura dos nossos sentidos, paras as ricas imagens sonoras que a música de Richard Wagner é capaz de evocar.

Dario Rodrigues Silva