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NC - Dmitri Shostakovich (1906 – 1975) - Concerto para Piano e Orquestra n° 2, em Fá Maior, Op. 102

De uma forma geral, o concerto para piano e orquestra foi e ainda é um dos gêneros prediletos dos compositores, dando assim, continuidade a um legado que começa com importantes nomes do período clássico tais como Joseph Haydn e Thomas Arne e seus primeiros concertos para fortepiano – um antecessor do piano de concerto tal qual conhecemos hoje – culminando em Mozart e seus incríveis 27 concertos, seguindo e se desenvolvendo com Carl Maria von Weber, Frédéric Chopin, Franz Liszt, Rachmaninnoff, Prokofieff e tantos outros que se propuseram a explorar as infinitas possibilidades do instrumento, adentrando também no século XX e XXI sob novas perspectivas e releituras. No período romântico, em especial, o concerto para piano era um dos principais gêneros dos compositores, sobretudo dos russos, que tanto zelavam por esse instrumento. Lembremo-nos de que a escola russa de piano sempre foi uma referência, de onde inúmeros virtuosos saíram, criando assim um ambiente propício para que tanto a técnica quanto as composições específicas para o instrumento se desenvolvessem a níveis consideráveis.

O compositor russo Dmitri Shostakovich compôs dois concertos para piano e orquestra, sendo que o segundo, datado de 1957, foi um presente dedicado ao seu filho Maxim, que acabara de completar 19 anos. Foi o próprio Maxim, na época um proeminente pianista, quem estreou esse mesmo concerto a ele dedicado, na ocasião de sua formatura no Conservatório de Moscou.

O segundo concerto para piano e orquestra de Shostakovich possui uma linguagem mais leve, envolto por uma energia jovial que transborda de vigor. Pode ser que esse caráter tenha sido reflexo da inspiração de seu jovem filho, mas também pode ter sido incentivado por um importante fato político da história russa. Em 1953, o ditador Joseph Stalin veio a falecer, fazendo com a névoa de pavor que assolava toda a elite intelectual russa – e isso incluía vários artistas tanto da música quanto de outras áreas – se dissolvesse, resultando em um grande alívio social

Shostakovich, ora compunha peças sóbrias, densas e sérias, e ora abusava do sarcasmo e da sátira, ou ainda, mesclava ambas as possibilidades. Porém, nesse seu segundo concerto para piano, podemos perceber uma postura mais clássica, como se ele olhasse para um passado longínquo de Haydn, tanto no espírito quanto na formalidade. Estruturalmente temos um modelo bastante convencional de andamentos para concertos, ou seja, o primeiro movimento de caráter mais vivo – Allegro –, um segundo andamento mais calmo e moderado – Andante – e no terceiro – Allegro – o caráter mais vivo e brilhante retorna. Tanto o primeiro quanto o terceiro andamentos são similares em relação à estrutura, cada qual com seu próprio caráter. O primeiro andamento começa com uma melodia um tanto quanto ousada, com um tom de ironia leve e sutil, e logo é abarcada com uma impetuosidade quase militar, sendo acompanhado pela caixa clara na percussão, seguido por momentos orquestrais triunfantes. O segundo movimento é tomado por uma singeleza de grande beleza e lirismo, com uma espiritualidade que muito facilmente poderíamos confundir com o estilo de Rachmaninoff. As cordas contam com o lirismo da trompa para que um ambiente contemplativo e majestoso seja criado, onde o solista realiza lentos arpejos na mão esquerda que servem de leito para as longas melodias da mão direita. Um movimento onde a simplicidade é a tônica. Imediatamente, e sem interrupções, o piano conduz ao terceiro movimento, em tom mais descontraído e divertido do que o primeiro. Há de se notar que, há muitas passagens com escalas e arpejos, o que, segundo o próprio Shostakovich, foi uma citação direta ao famoso exercício de técnica pianística Hanon, pois somente assim - disse o compositor em tom de brincadeira - seu filho seria forçado a estudá-los. O movimento encerra de maneira extasiante, em um galope que acontece logo após um clímax liderado pela flauta e piccolo. É uma obra sedutora, repleta de momentos inspiradores, que nos conquista e prende do início ao fim.

Dario Rodrigues Silva