PESQUISA

NC - Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791) - Concerto para Piano e Orquestra n° 21, em Dó Maior, KV.467

Talvez o mais importante legado do repertório pianístico resida nos 27 concertos para piano e orquestra de Wolfgang Amadeus Mozart. Através de um dos maiores nomes do período clássico, o gênero ganhou novas proporções. Pela primeira vez, desde os primeiros concertos para teclado de C. Ph. Emanuel Bach (1714 – 1788) – filho de J. S. Bach, que muito influenciou Mozart em suas primeiras alçadas como compositor -, Johann Schobert (ca. 1735 - 1767), Johann Baptist Vanhal (1739 - 1813), o gênero foi exposto a questões mais complexas como, por exemplo, o diálogo entre a orquestra e o piano solista e as possibilidades que poderiam surgir dessa conversa e, claro, como alguns problemas referentes ao uso dos materiais temáticos poderiam ser resolvidos. O esforço de Mozart estava centrado no equilíbrio dos aspectos sinfônicos da música de concerto, com o vocabulário pianístico, o que para muitos compositores anteriores foram verdadeiras armadilhas.

Seu “Concerto para Piano e Orquestra n° 21, em Dó Maior” é de sua época madura, do ano de 1785, período das grandes obras vienenses. É desse mesmo ano o seu também famoso “Concerto n° 20, em Ré menor, KV. 466”. Curiosamente, os dois constituem um par contrastante, quase antagônico em relação ao caráter década um, pois enquanto seu “Concerto em Ré menor” tem uma atmosfera mais sombria e nebulosa, o “Concerto em Dó Maior” é mais brilhante e luminoso. No final desse mesmo ano, Mozart também compôs o “Concerto n° 22 em Mi Bemol Maior”.

O primeiro movimento, um Allegro maestoso na forma sonata, possui um impulso que muito nos lembra uma marcha. Esse motivo permeia toda a obra, ora sendo intercalado com motivos mais líricos e melódicos, ora retornando ao forte caráter militar, fazendo dessa dualidade um agradável jogo entre solista e orquestra. Há ainda uma cadência no final desse movimento, embora no manuscrito de Mozart não conste nenhuma, pois pode ter sido perdida ao longo dos anos. Vale lembrar que, Mozart era um exímio improvisador, portanto, ele quase nunca escrevia suas cadências, pois preferia improvisá-las durante o concerto. Muitas anotações foram encontradas e editadas como sendo cadências por ele mesmo escritas, inclusive, alguns concertos contam com mais de uma versão de cadência, fato que mostra o quanto ele variava nesse aspecto, mas outras infelizmente se perderam. Há ainda a possibilidade de o intérprete escrever sua própria cadência, prática essa muito comum. O segundo movimento, Andante, começa com uma seção exclusiva para as cordas, onde os primeiros violinos realizam uma melodia inspiradora e de grande lirismo, guarnecida pelo apoio harmônico dos demais instrumentos de cordas. É um movimento tripartido, ou seja, em três partes, onde o solista irá surgir somente na segunda dessas seções, fazendo relembranças de motivos apresentados pela orquestra na primeira seção e, também, inserindo novos elementos musicais para o diálogo. Em seguida, depois que os materiais foram explorados e desenvolvidos, voltamos à re-exposição da primeira seção, novamente com as cordas e a melodia marcante nos primeiros violinos, porém, com uma breve corda que finaliza a seção. O último movimento, um Allegro vivace assai, se encontra na forma Rondó, cujo tema principal é exposto em tutti pela orquestra de maneira extasiante, preparando a entrada do piano, que segue desenvolvendo as ideias apresentadas. Nesse movimento, Mozart opta por uma escrita mais fluídica entre piano e orquestra, que trocam linhas em um diálogo constante. No final, o tema principal é mais uma vez relembrado para encerrar a obra de maneira triunfante.

Dario Rodrigues Silva