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NC - Gioachino Rossini (1792 - 1868) - Stabat Mater

Vários compositores se aventuraram em compor obras baseadas no texto Stabat Mater, desde renascentistas como o italiano Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525 - 1594), barrocos como Domenico Scarlatti (1685 - 1757), até clássicos como Joseph Haydn (1732 - 1809), chegando aos dias atuais através de compositores como Arvo Pärt (1935) e Penderecki (1933). O Stabat Mater é um poema religioso cuja origem está arraigada no contexto do século XIII. Era um texto usado na liturgia romana, servindo como sequência da missa ou assumindo a função de um hino. O texto começa com a frase “Stabat mater dolorosa”, que significa “Estava a mãe a sofrer”, cujo propósito reside na descrição da dor de Maria ao ver o filho Jesus crucificado.

Até meados do século XIX, o Stabat Mater era reservado quase exclusivamente para o ofício religioso. Com o passar dos anos, o gênero foi ganhando terreno no repertório de concerto das grandes orquestras e através de novas perspectivas por parte dos compositores, que agora ampliavam o potencial narrativo da obra com mais liberdade. É o caso de Rossini que durante quase toda a vida dedicou-se ao gênero operístico e, então, decidiu se aventurar em obras de natureza religiosa, sendo o seu Stabat Mater a mais conhecida e consagrada dessas obras. Por volta de 1831, em viagem à Espanha, Rossini recebeu encomenda de um conselheiro do Estado, o arquidiácono Fernández Varela, porém, por culpa de uma complicação de seu estado de saúde, teve de interromper o trabalho, deixando a conclusão à responsabilidade de seu amigo e também compositor italiano Giovanni Tadolini (1789 - 1872). A versão finalizada por Tadolini estreou em 1833 e só em 1841, após a morte de Varela, aquele que encomendou a obra, Rossini iria de fato terminar a composição, substituindo as seções compostas por Tadolini pelas suas próprias. A versão definitiva de Rossini foi estreada em Paris, em 1842.

A obra é composta para quatro solistas: soprano, mezzo-soprano, tenor e baixo, guarnecidos por um coro misto, além da orquestra. Contém dez seções, que se alternam em relação ao tipo de formação do grupo, ou seja, em algumas seções há o uso de duos, solista acompanhado pelo coro, ou então os quatro solistas simultaneamente, e assim por diante, dependendo da necessidade expressiva de cada passagem ou cena. É interessante notar que Rossini deixa transparecer sua vertente operística, através da dramaticidade da orquestração, dos gestos melódicos e de demais elementos como, por exemplo, a segunda seção nomeada Cujus animam, para tenor, que nos lembra uma ária de bravura de algumas de suas óperas. O Stabat Mater de Rossini se reveste de uma beleza ímpar, capaz de preencher o ambiente com uma solenidade envolvente, impregnada de intensa dramaticidade.

Dario Rodrigues Silva