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NC - Felix Mendelssohn Bartholdy (1809 - 1847) - As Hébridas (A Gruta de Fingal), Op. 26 - Abertura

Mendelssohn é natural da cidade alemã de Hamburgo. Pianista, organista, compositor e regente, é frequentemente citado como um dos mais prolíficos nomes do período de transição entre o classicismo e o início do romantismo, além de ser o principal responsável por reviver as obras do grande mestre do barroco, Johann S. Bach, até então eram desconhecidas e ausentes no repertório de concerto. O estilo de Mendelssohn ainda está muito atrelado aos preceitos clássicos da clareza e do controle absoluto da forma musical, porém, já avança rumo ao romantismo através da utilização de um vocabulário harmônico mais denso e rebuscado, e do lirismo presente nos contornos de suas melodias.

Por volta de 20 anos, em 1829, visitou a costa oeste da Escócia, onde se encontra o arquipélago das ilhas Hébridas. Ficou inspirado pela paisagem, principalmente pela gruta de Fingal, uma caverna localizada na ilha de Staffa. Com essa inspiração, um ano depois, em 1830, nasce sua obra então chamada de A Ilha Solitária. Numa revisão feita em meados de 1832, o próprio compositor mudou o título para As Hébridas, também frequentemente chamada de A Gruta de Fingal em referência aos arquipélagos visitados por ele.

A Gruta de Fingal é uma Abertura e, como é bem característico da era romântica, não tem o propósito de preceder uma peça concertante ou ópera; aqui, já temos um desprendimento do gênero em relação à sua função: é uma obra que se autosustenta, com autonomia e independência. O que antes era usado como peça de introdução ou preparação para uma obra maior, no romantismo, passa a ser um gênero independente. O mesmo ocorreu com os prelúdios, que tinham função de introduzir ou ambientar os ouvintes para o que viria a seguir, ou também com os intermezzos, peças musicais tocadas entre uma cena ou ato de uma ópera, e muitos outros gêneros que no romantismo se emanciparam da função principal e se tornaram obras independentes, com características próprias. Outro aspecto que enquadra essa obra genial em solo romântico é o programático. Embora não possua enredo ou história como base para seu desenrolar – o que definiria o termo programático – ela pode ser assim considerada por ter uma imagem, ambiente ou perfil que serviu como inspiração, ou seja, a Gruta de Fingal. Eis um aspecto absolutamente romântico: a representação musical metafórica de lugares, paisagens, lembranças e tudo mais que servisse de inspiração.

A obra se desenvolve sobre a tensão causada entre dois temas: o primeiro de perfil mais calmo, que cria um clima desolado e solitário, aspecto que fica claro no primeiro título dado pelo compositor – A Ilha Solitária –, e o segundo, cuja força expressiva lembra o movimento das ondas, da agitação do mar, o que nos proporciona um constante jogo de sensações entre esses dois pólos, ora nos levando para o interior da caverna e nos envolvendo com sua solidão obscura; ora nos arremessando à turbulência das ondas do mar, compondo uma paisagem musical intensa e arrebatadora.

Dario Rodrigues Silva