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NC - Astor Piazzolla - (1921 - 1992) - Tangos

Na Argentina, o tango é mais do que apenas um gênero musical, é a identidade de uma nação, um patrimônio de valor inestimável tal como o samba ou o chorinho é para o Brasil. Interferir na natureza de um gênero tão representativo como esse, significa também interferir nos valores culturais de um povo. Para que fosse possível uma renovação na maneira de se fazer e de se pensar o tango – ideia até então vista como uma heresia pelos mais tradicionalistas da época – seria necessária uma pessoa ousada e ao mesmo tempo capaz de agregar novos valores sem abdicar a tradição deixada por Carlos Gardel (1890 – 1935) – grande nome do tango tradicional –, e essa pessoa foi Astor Pantaleón Piazzolla.

Nascido em 1921 em Mar del Plata, Argentina, o compositor e bandoneonista Astor Piazzolla viveu parte de sua infância em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Essa experiência lhe possibilitou um contato muito próximo com o Blues e o Jazz que ecoavam pelas ruas e vielas dos bairros mais tradicionais de Nova Iorque e também com o repertório clássico que era apresentado nas grandes salas de concerto da mesma cidade. Juntamente com essas influências com as quais Piazzolla se deparava no transcorrer de sua juventude, seu pai, um imigrante italiano de nome Vicente Piazzolla, lhe ensinava a tocar o bandoneón, instrumento típico dos grupos de tango argentino. De volta à Argentina, em meados de 1938, e já compondo obras com fortes influências jazzísticas, Piazzolla começa a ter aulas com Alberto Ginastera (1916 – 1983), um dos mais renomados compositores argentinos de música erudita da época. Decorrente desse contato com Ginastera, em 1953, Piazzolla compõe sua “Sinfonia Buenos Aires” divida em três movimentos, peça que, embora tenha causado um grande mal-estar na parcela mais conservadora da plateia, que se sentiu ofendida ao constatar que Piazzolla havia incluído dois bandoneons junto a uma orquestra sinfônica, lhe garantiu uma ajuda de custo do governo francês para que ele fosse estudar em Paris com Nadia Boulanger, compositora tida como uma das figuras centrais da vanguarda do século XX, responsável pela formação de muitos dos grandes compositores dessa época.

Temos então, um compositor argentino, descendente de imigrantes italianos, que passou sua infância em Nova Iorque e que mais tarde estudou na sofisticada Paris dos anos 50. Foi justamente essa multiplicidade de influências que possibilitou a Astor Piazzolla, no decorrer dos anos, causar uma verdadeira revolução no cenário do tango ao regressar para a Argentina em meados de 1955, difundindo o que foi chamado pela crítica e admiradores de “Nuevo Tango”, ou seja, um novo tango que agora manifestava os mais variados sotaques, desde as harmonias e síncopas típicas do jazz, até as colorações mais intensas da harmonia francesa, adensadas pelo ritmo visceral de Alberto Ginastera e, ao mesmo tempo, reverenciando ao legado de Gardel e outros da velha guarda. Ao contrário do que se pensava, Piazzolla não causou uma desestruturação ou descaracterização do gênero, mas, sim, uma ampliação, fazendo com que o tango passasse de uma manifestação idiossincrática para uma de âmbito global, capaz de dialogar com os mais variados universos estilísticos em um hibridismo nunca antes experimentado.

Uma das obras mais conhecidas e de maior inspiração do compositor é “Adios Nonino”, composta em 1959. Piazzolla a escreveu poucos dias depois da morte de seu pai, Vicente Piazzolla, a quem ele chamava carinhosamente de Nonino – avozinho, em italiano. É, talvez, uma das obras mais sentimentais de Piazzolla. A sua obra “Oblivion”, composta em 1982, foi música tema do filme “Henrique IV”, dirigido por Marco Bellocchio em 1984. É uma obra cuja linguagem é mais tradicional, não muito ousada se comparada com outras da mesma época, mas de muito requinte em seu melodismo e orquestração. Outras peças como “Libertango”, “Meditango” e “Violentango”, todas de 1974, marcaram a ruptura de Piazzolla com a corrente mais conservadora, indo em direção ao seu “Nuevo Tango”. As obras “Alevare” e “Fuga y Misterio” são pertencentes a uma ópera composta por Piazzolla em meados de 1968, chamada “Maria de Buenos Aires”. Já o “Tangazo” é um poema sinfônico para orquestra composto em 1977, que se desenvolve através de episódios líricos, de grande natureza poética. A “Fugata” é pertencente à Suíte “Sylfo y Ondina” de 1969, dividida em três movimentos (Fugata, Soledad e Final). A “Fuga 9”, como o próprio título já diz, é uma pequena fuga, em que uma melodia de caráter marcante é constantemente reiterada e submetida a variações.

Dario Rodrigues Silva