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NC - Ludwig van Beethoven (1770 - 1827) - Sinfonia n° 9, em ré menor, Op. 125

Composta em 1824 por Ludwig van Beethoven, a Nona Sinfonia é uma das obras mais importantes do repertório clássico ocidental. É uma obra de transição, que se despede dos últimos suspiros do Classicismo e, ao mesmo tempo, dá boas-vindas aos novos ares do Romantismo. Um dos aspectos mais importantes, e que mais nos chama a atenção na sinfonia, é a presença marcante do coral. Talvez tenha sido a primeira vez que um coro teve uma participação tão grandiosa em uma obra sinfônica – daí o motivo de também ser conhecida como “Sinfonia Coral” –, causando um grande impacto sonoro, em que orquestra e vozes não se confrontam, mas se somam e dialogam de igual para igual, no mesmo nível de importância. Foi composta após a fase mais turbulenta da vida de Beethoven, que começou em meados de 1816. A essa altura, Beethoven já estava com sua audição bastante comprometida, o que o levou a uma crise composicional muito forte, obrigando-o a ficar algum tempo sem compor absolutamente nada, restrito apenas ao seu mundo interior. Ironicamente, foi graças à surdez e à sua prodigiosa mente que Beethoven conseguiu se libertar cada vez mais das limitações do mundo dos sons, e isso pode ter contribuído para essa música surpreendentemente nova, que testou os limites da compreensão da época, e ainda desafia os ouvidos atuais.

Outro ponto que torna a obra ainda mais valiosa é o uso de trechos do poema “Ode à Alegria” – “Aun die Freude”– de Friedrich Schiller (1759-1805), respeitado escritor e filósofo alemão. O texto é utilizado no último movimento e é cantado pelos solistas e pelo coro, com grande júbilo e exaltação, fazendo jus ao teor do próprio poema. O impacto social desse movimento foi tanto que acabou ganhando um arranjo feito pelo ilustre maestro Herbert Von Karajan, para ser utilizado como hino oficial da União Europeia. O tema do quarto movimento – que popularmente é chamado de “Ode à Alegria”, em referência direta ao título do poema –  se transformou em um ícone musical da nossa cultura, usado em vários filmes como “A Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, e também em ocasiões políticas de grande significância, como por exemplo, durante a queda do muro de Berlin em novembro de 1989. O tema tornou-se mais do que uma música, mas um porta-voz da alegria, da liberdade e da celebração.

Essa sinfonia foi um marco para muitos compositores depois de Beethoven e, em muitos aspectos, ainda continua sendo para os contemporâneos. Românticos como Liszt (1811-1886) e Wagner (1813-1883), que inclusive fizeram arranjos para piano solo da obra, se espelharam em Beethoven, sobretudo nas obras da mesma época da 9ª Sinfonia, para ampliarem suas percepções musicais, estudando-as e refletindo sobre as inovações realizadas pelo grande mestre. A 9ª foi o primeiro passo para a expansão da sinfonia rumo a proporções gigantescas, como aconteceu posteriormente através do compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911) e de seu conterrâneo Anton Bruckner (1824-1896), cujas sinfonias eram enormes, de longa duração e com uma orquestração densa, verdadeiros monumentos sonoros.

A 9ª Sinfonia detém um lugar tão especial dentro da história da música que, para um músico e até mesmo um leigo, após ouvi-la e apreciá-la, fica difícil entender o que seria dos demais compositores pós-Beethoven se essa obra não existisse. Fica difícil imaginar quais dos outros compositores seriam capazes de tamanha proeza. Beethoven precisou mergulhar no mais profundo silêncio, tornar-se prisioneiro de si mesmo em decorrência do isolamento causado pela surdez para, então, encontrar uma nova senda em sua essência que lhe permitisse compor tal obra, e tal reclusão não significaria nada se não fosse o seu talento e genialidade.

Dario Rodrigues Silva